Jornalismo lacrador é péssimo jornalismo

Por Fernando Cesarotti 477 visualizações1

Parte da esquerda brasileira, muitos deles os mesmos que crucificaram Karnal por um jantar com vinho com Sergio Moro, comemorou as denúncias sobre o uso de caixa 2 pelo vereador paulistano Fernando Holiday (DEM) feitas pelo Buzzfeed no começo da semana. E se deliciou com a “lacrada” que o jornalista Fabio Pannunzio, da rádio Bandeirantes, deu no jovem edil, reproduzidas no vídeo abaixo.

Como esquerdista, óbvio que me divirto ao ver ruir a imagem pasteurizada de Holiday criada pelo MBL, um movimento falso até a medula, que tenta impor sua ideologia conservadora, neoliberal e entreguista com o disfarce de “não somos políticos” e “não temos ideologia”, uma óbvia conversa mole.

O meu problema é com quem acha que Pannunzio “lacrou”. O que o veterano jornalista fez não tem nada de bom jornalismo – nem jornalismo é, na verdade. O jornalismo ali acabou quando a produção botou o telefone no ar, e já tinha sido ferido com as ironias do apresentador com o repórter Pedro Campos, insinuando covardia de Holiday por não atender a seus telefonemas.

Depois, Pannunzio foi mal-educado e grosseiro ao rebater a grosseria de Holiday e mandar abaixar o volume do entrevistado enquanto fazia sua pergunta. E fechou com chave de merda a “entrevista” ao desligar o telefone na cara do vereador, enquanto este dava um chilique, e ainda saiu se gabando e agindo como se fosse um juiz, cheio de certezas: “Usou caixa dois sim e o resto é papo furado”, sentenciou em voz alta. “Lacrei”, não disse, mas certamente pensou.

Na faculdade de Jornalismo aprendi, e hoje tento reproduzir aos meus alunos hoje. que o repórter deve manter a compostura diante de eventuais momentos de descontrole do entrevistado. Em nome do público, que é em última instância nosso patrão, não podemos nos rebaixar à falta de preparo do interlocutor e assumir essa postura de lacração que tanta gente aprecia, mas que, no fundo, não constrói nada, só amplia o cenário de terra arrasada. Seria bom que tal postura ficasse presa ao passado.

Fernando Cesarotti

Professor, jornalista, corneteiro, esquerdista. Parmera, São Bento, Seahawks, Beatles, grunge, britpop, brock. "Intelligence should be our first weapon", já dizia o sábio Paul Weller. Seguimos tentando.

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