Com Quem Jantam os Bons?

Por Fernando Souza Jr. 534 visualizações0

Dinner in New York – Edward Hopper – 1930 (óleo sobre tela, Metropolitan Museum of Art, Nova York)

Você deve ter ouvido falar na semana passada: Leandro Karnal, professor de História da Unicamp, comentarista do Jornal da Cultura e colunista do Estadão, foi duramente criticado, repreendido e até achincalhado por uma parte da militância de esquerda por um fato absolutamente prosaico: ele postou uma foto em seu Facebook pessoal em que está à mesa jantando com dois juízes de direito, um deles Sérgio Moro, o magistrado à frente do processo da operação Lava-Jato em Curitiba.

Quem me acompanha nas redes sociais e conversa comigo sabe perfeitamente que sou um crítico contumaz do juiz Sérgio Moro na condução do processo que o tornou uma espécie de celebridade da cruzada brasileira contra a corrupção. Minhas restrições começam justamente na opção deliberada de Moro ao aceitar de bom grado esse papel de celebridade, escanteando a postura de distanciamento, serenidade e discrição que devem marcar a atuação de todo juiz (e aqui lembramos com saudade o recém-falecido ministro do Supremo Teori Zavascki), passam por interpretações da lei que distorcem princípios caros ao espírito democrático consagrado na Constituição Federal, e terminam no seu evidente desprezo pela advocacia e pelos advogados de modo geral.

Tudo Isso, entretanto, não me permite eleger Sérgio Moro como um inimigo a ser combatido. Ele não é o neonazista que merece ter a cara socada durante uma entrevista para a TV. Até compreendo os protestos que vem perseguindo o juiz da Lava-Jato, principalmente em eventos fora do país: ao assumir muitas vezes uma atitude deliberadamente política, dando a impressão que deseja de fato candidatar-se a algum cargo eletivo, Moro naturalmente atrai para si o ônus proporcional de se descer, ainda que por pouco tempo e de maneira implícita, ao chão de fábrica da política eleitoral.

Isto posto, resta a pergunta: porque parte da esquerda brasileira execrou o fato de Leandro Karnal jantar com Sérgio Moro? Karnal é parte em algum processo sob a judicação de Moro? Há um conflito ético nessa relação? Aliás: vocês se lembram quando a ética era uma bandeira da esquerda?

Karnal, historiador com produção acadêmica robusta, titular da Unicamp, professor brilhante – atesto porque fui seu aluno, muitos anos atrás, num curso livre de história das religiões – virou um hit da internet e das redes sociais ao usar seu conhecimento e carisma para opinar sobre a sociedade brasileira, em especial a polarização política radical em que estamos afundados.

Curiosamente, Karnal virou personagem do fenômeno que rotineiramente é objeto de seus comentários: ao sentar à mesa para conversar com Sérgio Moro, virou um “traidor” da causa da esquerda brasileira, por supostamente estar congratulando com o magistrado ídolo dos “inimigos” que saíram às ruas para pedir o impeachment de Dilma Rousseff.

De repente, não importavam mais as posições firmes do professor, explícitas em seus textos e suas falas, contra a homofobia, o machismo, a misoginia, o racismo – estas que deveriam ser, sempre em primeiro lugar, as bandeiras maiores de qualquer movimento dito progressista.

Também não interessavam mais as críticas de Karnal ao processo de impeachment ou sua tese de que a corrupção brasileira é mal histórico e arraigado, e não fruto da passagem da passagem do PT pelo Poder.

Karnal não seguiu a cartilha de militante “de verdade” ao dividir um vinho com seu colega de bancada na PUC. Não tratou este colega como inimigo. Pior, pecado supremo: manteve diálogo e interlocução com ele.

Este episódio, assim como outros de repercussão nas redes, demonstra o que se tornou boa parte da esquerda brasileira, principalmente aquela que defendia o governo Dilma com mais afinco e orbitava em torno dele: um movimento perdido e enclausurado em si mesmo, incapaz de manter qualquer interlocução fora de sua bolha.

Pior: castradora, vigilante e patrulhadora dos hábitos e opiniões alheias, está sempre pronta a julgar e execrar publicamente qualquer um que cometa o “deslize” de rezar fora de sua cartilha.

Paranóica e afundada no ressentimento pelo impeachment que afastou Dilma, enxerga apenas conspiração e ataque no campo em que deveria estar disputando, no diálogo e no convencimento (na militância de verdade e não nos caixotes virtuais da internet) os corações e mentes daqueles que tendem a fugir da polarização política.

É irônico você pensar que o Brasil testemunhou, nos últimos anos, uma espécie de macartismo adaptado aos trópicos, com perseguição e acusações de todo tipo contra quem tem alguma posição política mais à esquerda – a radicalização de discursos que, no começo, pareciam chistes patéticos: vai pra Cuba!, comunista de iPhone!, tá com pena de bandido? leva pra casa! a nossa bandeira jamais será vermelha!, etc .

E agora, alimentando o monstro que deveria combater, a esquerda passa a utilizar-se da mesma tática, a sanha denuncista e desqualificadora contra um “dos nossos” que, ó céus!, jantou com a pessoa “errada” e, assim, não serve mais à causa. Não se demonstrou bom e puro o suficiente.

Leandro Karnal poderia muito bem ter respondido: “e quem disse que eu quero ser um dos vossos?”

Enredada na própria narrativa e incapaz de olhar para o lado sem fazer qualquer gesto que não seja apontar o dedo (e acusar e se vitimizar), indisposta ao diálogo e sem condições de liderar ou entregar qualquer projeto de potência a seus possíveis eleitores, a esquerda vê-se distante do poder e se pergunta porque figuras como João Doria vencem eleições e surfam na popularidade.

Não há resposta única, é verdade, mas uma delas está na mania que se apossou da militância de esquerda, sobretudo aquela que vocifera nas redes sociais, ávida por lacrar e julgar quem passa por seu caminho, querendo pretensiosamente dominar certas subjetividades, determinando até mesmo quem deve jantar com quem numa noite de sexta-feira.

Assim, fica fácil para a direita.

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