Cara a cara com Humbertinho

Por Fernando Cesarotti 94 visualizações2

Os nossos sonhos são os mesmos há muito tempo
Mas não há mais muito tempo pra sonhar

A vida é curta demais, e a gente não pode passar por ela sem passar por algumas experiências – entre elas, conferir de perto seus músicos preferidos. E eu nunca tinha visto Humberto Gessinger tocar ao vivo.
Eu já tinha até estado mais perto, três anos e meio atrás, numa divertida conversa de uma hora que rendeu esta entrevista publicada no ScreamYell. Mas naquele dia ele estava em Sorocaba para lançar um livro, e não para tocar, e até brincou comigo que nem tinha trazido um violão. E eu cometi o erro fundamental aos olhos da objetividade jornalística de admitir pra ele que era seu fã, ele ficou até meio sem jeito, depois disse na entrevista que não gosta dessa figura de “formador de opinião”, digamos assim.
Como todo garoto nascido no fim dos anos 70, era impossível ficar alheio ao Engenheiros do Hawaii: ou você gostava ou detestava. Eu era do primeiro time, e ganhei no meu aniversário de 13 anos, em 1991, O Papa é Pop em fita cassete. Depois, na oitava série, meu amigo Marcelo Pakes gravou pra mim uma fita com o Alívio Imediato, o primeiro disco ao vivo, e uma parte do Várias Variáveis pra completar o espaço – eu amava aquela sequência errada em “Curtametragem”. Em 1993 eles vieram a Sorocaba tocar no Recreativo, onde um ano antes eu tinha visto o Legião, mas dessa vez minha mãe não me deixou ir. Era a turnê do disco azul e na manhã seguinte eles fizeram o show no Bem Brasil, da Cultura. (Clique aqui para ver, bendito YouTube!)

Depois eu cresci, fui pra faculdade, tive minha fase de metaleiro e não acompanhei a sequência do Engenheiros após o fim da formação clássica. Foi só com o Acústico MTV que voltei a me interessar por Humberto.

Hey, mãe!
Eu tenho uma guitarra elétrica
Durante muito tempo isso foi tudo
Que eu queria ter

Mas, hey mãe!
Alguma coisa ficou pra trás
Antigamente eu sabia exatamente o que fazer

Eu tinha acabado de ganhar meu primeiro violão, meu grande sonho de adolescência que só chegou à beira dos 30, e o DVD que arrumei do Acústico tinha não só as letras, mas também as cifras. E eu passei tardes tentando acompanhar as músicas ao violão, desajeitado e desafinando, errando as pestanas ou tentando fazer só a parte do baixo. Não consegui porra nenhuma, mas valeu a intenção e hoje o violão segue guardado, acumulando poeira.

Hey, mãe!
Já não esquento a cabeça
Durante muito tempo
Isso foi só o que eu podia fazer

Mas, hey hey, mãe!
Por mais que a gente cresça
Há sempre coisas que a gente
Não pode entender

Aquela tarde de novembro de 2013, no hall de um hotel metido a grã-fino em Sorocaba, me fez recuperar de vez o gosto pela obra de Humberto. Naquele dia passei a ver nele não só o bom músico, o rockstar, o letrista capaz de encaixar “vamos namorar à luz do polo petroquímico” num verso, mas um cara bacana, feliz e de bem com a vida. Parecia que suas letras tinham mais a me dizer do que antes, e faziam mais sentido tantos anos depois que as de Renato Russo ou Herbert Vianna. Acompanhei sua nova e eventual carreira solo até dar certo a chance de, enfim, vê-lo ao vivo.
E esse dia chegou no último sábado, no Tom Brasil. Humberto subiu ao palco com mais dois jovens músicos, ambos com idade para serem seus filhos, cantou na íntegra A Revolta dos Dândis, o segundo disco da banda, o primeiro na formação Gessinger-Licks-Maltz, e que está fazendo 30 anos, e deu o show que meus olhos esperaram desde que apertei o play pela primeira vez naquela fita.

Não importa se só tocam
O primeiro acorde da canção
A gente escreve o resto em linhas tortas
Nas portas da percepção
Em paredes de banheiro
Nas folhas que o outono leva ao chão
Em livros de histórias seremos a memória dos dias que virão
Se é que eles virão

Eles vieram, Humberto. Eles vieram e continuarão vindo. Entre o rosto e o retrato, o real e o abstrato, a loucura e a lucidez, a verdade e o rock inglês, o fim do mundo e o fim do mês, seremos eternamente estrangeiros, passageiros do trem que é só uma ilusão. E o que é real, no fim das contas?

Fernando Cesarotti

Professor, jornalista, corneteiro, esquerdista. Parmera, São Bento, Seahawks, Beatles, grunge, britpop, brock. "Intelligence should be our first weapon", já dizia o sábio Paul Weller. Seguimos tentando.

Comentários (2)

  1. Que texto legal!
    Parabéns pela narrativa, e foi legal sacar que viu HG aos 30!

    1. Fernando Cesarotti

      Rapaz, só fui ver aos quase 40, demorou muito… Obrigado pela leitura!

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