Sobre o tempo e os letreiros

Por Maurício Gaia 87 visualizações0

Uma vez eu estava namorando – como eu gostava daquele tumblr “Uma vez estava Namorando”, mas aí é outra história – e resolvi levá-la para comer no Seu Oswaldo, no Ipiranga. “Você vai comer o melhor sanduiche do mundo”, disse a ela.

Na época (2004? 2006? Não lembro.. Ah, as memórias e o tempo), Seu Oswaldo ainda ficava ali no balcão, anotando os pedidos e, de vez em quando, indo para a chapa.

Hamburguer do Seu Oswaldo, ainda com o próprio no balcão

Muita gente no bairro tem uma história com ele. A minha favorita é quando uma noite, já com as portas do estabelecimento fechadas e alguns poucos clientes estávamos ali degustando o cheeseburguer maravilhoso que era (e ainda é) servido. Eis que, batidas fortes na porta, algum retardatário querendo entrar. Seu Oswaldo, que não era conhecido pela paciência, bufou e foi abrir a porta

    – É aqui a lanchonete do Seu Oswaldo?
    – É sim, mas já tá fechado. O que você quer?
    – É que me disseram que você faz um sanduiche com molho igual ao do Kaskata’s. Queria experimentar.
    – Se quer comer o molho do Kaskata’s, vá ao Kaskata’s!! Agora saia daqui, vá pro Kaskata’s!! Meu molho não é igual ao do Kaskata’s! Aquele filho da puta tentou roubar minha receita e fica falando eu faço molho igual a ele!! É ele que tentou me copiar, aquele vagabundo!! Vá para o Kaskata’s, coma lá!!

E assim, o retardatário foi expulso do Oswaldo. Nós, as três ou quatro testemunhas do ocorrido, começamos a aplaudir Seu Oswaldo. “Aí, seu Oswaldo, Kaskata’s é uma merda, mesmo!!”

Bom, voltando: uma vez estava namorando e levei a namorada para comer o cheeseburguer do Seu Oswaldo, o “melhor sanduíche do mundo, você vai ver”. Ela comeu, gostou, até tirou uma foto do Seu Oswaldo, mas, verdade seja dita, ela não ficou lá muito impressionada.

Sei que, tempos depois, ela virou para mim e disse para irmos à Lanchonete da Cidade, quando ainda não tinha tantas unidades por aí. A Lanchonete da Cidade é daqueles lugares que hoje são “trendie”, mas eu não consigo entender ou aceitar que um sanduíche, que deveria ser uma alternativa barata de refeição, custe mais caro que um PFzão de responsa. “Você fica falando do “Seu Oswaldo”, vou te mostrar um sanduíche melhor”, ela disse.

Ok. Peguei o cardápio e eis que eu vejo no rodapé o aviso dos donos: “Decidimos montar a Lanchonete da Cidade depois que provamos o Hamburguer do Seu Oswaldo” – e vinha ali o endereço da lanchonete do velho, na Bom Pastor.

Uma vez estava namorando e, de repente, eu não estava mais. O tempo passou, Seu Oswaldo morreu, sua lanchonete foi ampliada, mas ainda até hoje, o mesmo chapeiro está lá.

O cardápio continua o mesmo: não vai ter batata frita, nem outras coisas a não ser sanduíches. É para isso que você foi lá: para comer o cheeseburguer sem frescuras e bem feito que impressionou até um dos precursores das lanchonetes gourmet que hoje empesteiam a cidade.

Não aceita cartão. Ainda tem fila na porta aos finais de semana. Continua abrindo tarde e fechando cedo. Não abre aos domingos. Não tem cerveja no cardápio – mas se você pedir, sai uma latinha – mas não vai ser cerveja premium ou artesanal. Vai ser skol, brahma, e olhe lá.

Mas teve uma coisa que mudou e me deixou preocupado com essas modernidades que o mundo e os especialistas de marketing ficam dizendo que “é o certo”, entre outras tantas bobagens: agora tem um letreiro na fachada. Até outro dia, não tinha letreiro na fachada ou nenhuma outra identificaçao externa. Agora tem.

Na hora pensei: será que Seu Oswaldo permitiria isso? Não sei, espero que não. Só me falta agora servirem hamburguer gourmet e aceitarem cartão. Começarem a vender batatas fritas e cervejas artesanais. Meu coração não vai aguentar…

Maurício Gaia

Reza a lenda que, depois de tê-lo visto jogar uma partida de futebol society, Jorge Benjor fez uma viagem astral no passado, para encontrar seu eu de 1975, o homem ainda conhecido como Jorge Ben. Neste encontro, Benjor sussurou no inconsciente de Ben a letra de "Umbabarauma", sendo a primeira música homenagem prévia ao grande craque do céspede que Maurício Gaia se tornaria no futuro.

Além disso, mau10 lê, escreve e sabe contar até 100. Gosta de baião-de-dois e de guacamole com wasabi. Dizem que ele é um cara sério na internet.

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