A inadequação como matéria-prima

Por Márcio Viana 93 visualizações0

Devo confessar
Tem sido um porre
Essa coisa de ser jovem sem saber onde vai dar
Procuro estrelas na cidade
Como quem procura vida
Essa espécie de esperança
Pra essas noites mal dormidas
Em que penso em escapar

Phillip Long, “Pra quem já quis fugir pro mato”, do álbum Manifesto (2017)

Recentemente descobri a palavra que definiu o sentimento que acompanhou boa parte da minha vida neste planeta: inadequação. O sentimento é bastante comum, especialmente quando se é jovem, creio eu. Aquele momento da vida em que você se vê obrigado a levar a sério a pergunta “o que você quer ser quando crescer?”. Mas é também um momento em que qualquer frase errada desmorona um castelo. Lembro que aos dezesseis, tentando aprender a tocar violão, ouvi de alguém da família uma frase me comparando ao filho do vizinho, que sabia tocar as músicas que tocavam no rádio, enquanto eu só tocava coisas que ninguém conhecia (eram composições minhas) e perdi o estímulo, que ao longo dos anos venho tentando recuperar. Não se engane com minha aparente empolgação: eu desisto da música todas as noites de domingo, antes de ir dormir (mas volto atrás toda segunda-feira).

A constatação sobre qual era este sentimento veio em duas etapas. A primeira não dizia respeito a mim diretamente, mas envolveu uma cena que caberia no roteiro de Seinfeld, não tivesse eu um mínimo de juízo:

Há alguns anos fui assistir com minha esposa à apresentação de uma ópera no Theatro São Pedro, em São Paulo chamada O menino e a liberdade. A peça de um ato era baseada em um conto escrito por Paulo Bomfim, poeta paulistano.

Chegando no local marcado, na primeira fila, notamos que havia um casal de idosos no nosso lugar. Ao invés de nos indispormos com os velhinhos, resolvemos procurar um outro local vago para ficarmos. Logo em seguida, eles perceberam que não estavam no local certo e mudaram para as poltronas ao lado, e pudemos retomar nosso lugar. A ópera iniciava com um depoimento do próprio Paulo Bomfim, do qual falarei mais daqui a pouco, e o enredo seguiu por cerca de uma hora. Ao final da apresentação, na hora dos aplausos, as luzes se voltaram para o casal de velhinhos, e neste momento me dei conta de que estava ao lado do autor do conto em que a peça era baseada.

Dito isso, e tendo eu escapado de protagonizar a tal cena de seriado – caso tivesse optado por pleitear meu lugar marcado e discutir com o casal de idosos homenageado no final da peça – quero falar sobre o depoimento em áudio do autor no início da apresentação. Ele dizia que recebeu com perplexidade a notícia de que, com quase 90 anos, teria um conto adaptado para uma obra lírica. Na saída do teatro, e ao longo de inúmeras conversas, minha esposa confidenciou que encontrou a palavra representativa de um sentimento que a acompanha desde a infância: perplexidade. Me explicou as razões (que não são o foco deste texto, mas que compreendi) e me despertou o interesse em tentar saber qual foi o meu próprio sentimento ao longo da vida.

A resposta chegou finalmente este ano, lendo uma entrevista do ator e diretor Selton Mello a respeito de seu filme mais recente, O filme da minha vida: na tal entrevista, ele cita o sentimento de inadequação, muito comum entre os adolescentes de todas as gerações em suas transições de fase, tão comuns quanto a troca de pele de alguns répteis. Pois bem, o sentimento presente em várias das minhas “trocas de pele” foi o de inadequação.

Essa coisa de ser jovem sem saber onde vai dar…

Longe de fazer desse texto meu muro de lamentações, comecei a pensar o quanto fui influenciado por manifestações artísticas que evidenciassem este sentimento. Na literatura, posso citar os personagens Eduardo Marciano, de O Encontro Marcado (Fernando Sabino) ou Eugênio, de Olhai Os Lírios do Campo (Érico Veríssimo). Talvez caiba aqui Gregor Samsa, de A Metamorfose (Franz Kafka) e uns tantos outros. Na música, me lembrei recentemente que aos dezessete anos eu ouvia na mesma medida Nevermind, do Nirvana, e Alucinação, do Belchior (este último talvez meu exemplo mais claro de artista que traduziu o sentimento de inadequação).

Sobre Belchior, aliás, uma consideração: logo no início dessa crise infindável pela qual passa o Brasil nestes tempos severos, lamentei que era uma pena que ele havia escolhido viver no ostracismo, já que seria um momento propício para que retornasse com mais um disco carregado de questionamentos sobre a vida. Infelizmente, além de não sair da reclusão, o cantor faleceu este ano.

O que achei mais próximo disso foi um disco recém-lançado, do artista que citei ali no começo, Phillip Long, Manifesto, um compêndio desse descaralhamento, pensei aqui. Exemplo disso é Balada de um compositor amargo: “Não te contaram do frio e do medo, do desespero que beira os 30…”.

Meu álbum preferido de 2017.

No cinema, inúmeros devem ser os exemplos, inclusive o supracitado filme de Selton Mello, e – por que não? – o próprio concorrente a uma indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar, Bingo – o Rei das Manhãs, afinal é a história de um artista tentando mostrar seu valor.

Mas quero mesmo falar é de Glory, filme búlgaro que disputa com Bingo a indicação. O personagem central é Tzanko Petrov, um homem humilde, sem estudo e com dificuldades para se expressar. Um homem sem importância para a sociedade, até o momento em que, no desempenho de seu trabalho, encontra uma grande quantidade de dinheiro, e movido pelo seu princípio de honestidade, resolve entregar a bolada às autoridades. Daí em diante, sob o manto da homenagem pelo ato heróico, Petrov é submetido a inúmeros abusos pelo sistema. Mais do que o reconhecimento vazio – diante do que lhe é oferecido – o protagonista ainda se vê obrigado a lutar com as armas que tem (quase nenhuma, é bem verdade). Glory, além de ser uma história sobre desespero, causa desespero. Para quem assistiu ao filme Eu, Daniel Blake, de Ken Loach, eis aqui uma dose extra de sensação de impotência.

A amargura de Tzenko Petrov se dá ao encontrar uma fortuna e perder seu relógio

Há na arte em geral, modos diversos de se lidar com o sentimento de inadequação: o The Who, por exemplo, expressou toda sua revolta, desejando morrer antes de ficar velho (Roger Daltrey, 73, e Pete Townshend, 72, os integrantes sobreviventes da banda, estão em plena atividade, com turnê passando pelo Brasil em 2017). Há também quem lide com o sentimento de forma melancólica, como Fernando Sabino em seu alterego já citado há alguns parágrafos. Traduzir nossa frustração em arte talvez seja uma forma de fabricar nosso próprio remédio. Enquanto a inquietação for nossa mola propulsora, acho que estamos no caminho certo.

 

Comente

Seu e-mail não será publicado

.