E se os Beatles fossem brasileiros?

Por Maurício Gaia 118 visualizações0

Há alguns dias, entrevistei (junto com Marcelo Moreira), para o programa Combate Rock (você nunca ouviu? Pois deveria!) o jornalista Bento Araújo, autor do livro “Lindo Sonho Delirante”, que enfoca a música psicodélica feita no Brasil pelos anos 1960 e 1970.

Lá pelas tantas, ele fala: “o Brasil é um país psicodélico em sua essência, antropofágico e tals”. Aí, me peguei pensando: “e se os Beatles fossem brasileiros?”. Bom, se eles fossem brasileiros, a história seria mais ou menos assim:

Os The Beatles, tocando ao vivo no Caverna, em Volta Redonda (que eu te amo)

Os The Beatles (sim, chamariam assim: “Os The Beatles”) surgiram em Volta Redonda.

Em 1962, foram descobertos por Carlos Imperial, que os leva para o Rio de Janeiro.

Até 1965, quando romperam com Imperial, muitos de seus sucessos foram frutos da parceria Lennon/McCartney/Imperial, que jurou até a morte que as músicas todas, na verdade, eram somente dele.

João era obcecado por Oswald de Andrade e pelos poetas construtivistas dos anos 1950. No álbum Revolver, de 1966, ele fez uma adaptação de “Viva a Vaia”, que acabou influenciando diretamente os tropicalistas (e Arnaldo Antunes, anos depois).

Na primeira apresentação d’Os The Beatles no programa do Chacrinha, em 1963, Jorge levou um bacalhau na cara do Velho Guerreiro. Até hoje, camisetas com esta imagem estampada são sucesso de vendas em qualquer feira hippie do país.

O Velho Guerreiro mostra o bacalhau que ele jogou em Jorge, na primeira apresentação d’Os The Beatles em seu programa.

Ringo era o único com formação musical. Antes de entrar na banda, tinha estudado na UFBA, em Salvador, com Hans Joachim Koellreuter e Walter Smetak. Por conta de seu conhecimento musical, dividia os arranjos das canções dos The Beatles com Rogério Duprat.

Paulo era fanático por rock’n’roll, mas não escondia sua adoração por Orlando Silva, Dolores Duran e Johnny Alf.

Em 1967, lançam seu álbum mais ambicioso, o Clube do Coroné Pimenta, com os 4 vestidos de Carmen Miranda na capa. Caetano Veloso não gostou.

Contra-capa de Coroné Pimenta

Panis Et Circenses, o marco-zero do tropicalismo, claramente influenciado pelo trabalho dos The Beatles, também foi produzido por Rogério Duprat. João não gostou. Paulo também não. Ringo deu risada: “eu faço melhor que isso”.

Com o tropicalismo, surgiu a rivalidade: Os The Beatles x Os Mutantes, com os fãs das duas bandas se pegando de tapa nos grandes centros do país. Caetano Veloso gostou.

Depois de vários atritos, Paulo foi expulso da banda: “fica de conversinha com Ronnie Von pelos cantos”, acusou João. Paulo retrucou: “João queria gravar com Geraldo Vandré. É um ótimo cara, mas muito pobre musicalmente.” Os the Beatles implodiram e cada um foi para seu canto.

Jorge foi para a India com sua amiga, Leila Diniz, mas resolveu voltar uma semana antes dela, que acabou morrendo em um acidente aéreo. Anos depois, doido de ácido, gravou “Ogum, Xangô e Krishna”, com Jorge Ben e Gilberto Gil.

João resolveu se arriscar no cinema e foi convidado para participar de um filme com Glauber Rocha. Brigaram, no meio do filme, pois Glauber se irritava com Darlene, namorada de John, gritando “Corta”, enquanto ficava deitada no set de filmagem.

Paulo passou a colaborar com diversos artistas: Roberto, Erasmo, Tim Maia, mas arrebentou nos anos 1970 com a banda “Tutti-Frutti”, com a participação da ex-Mutante (para a surpresa de todos) Rita Lee e Lucinha Turnbull. João não gostou.

Ringo resolveu voltar para a Bahia, retomando seus estudos com seus antigos mestres.

João morreu baleado enquanto chegava em seu prédio, em São Paulo, em 1980. O atirador o tinha confundido com Raul Seixas, que não apareceu.

Jorge, depois de ter tocado com artistas como Lanny Gordin, Raul Seixas e Eduardo Araújo , morreu em 2001.

Paulo tem seu programa de fim de ano na Globo. Caetano não gosta. Rita Lee também não.

Ringo cria o Trio Elétrico do Ringo Nagô, que até hoje é um dos principais trios elétricos do carnaval baiano. Caetano não gostou. Ivete também não. Gilberto Gil sobe todo o ano para cantar no trio de Ringo, junto com Carlinhos Brown.

O catálogo d’Os The Beatles foi redescoberto por David Byrne, dos Talking Heads e lançado no exterior. Sean Ono Jagger, filho do lendário vocalista dos Rolling Stones, é fã assumido da banda brasileira, que ganhou status de cult na Europa e Estados Unidos.

 

ps.: Este post não seria possível sem a colaboração criativa dos outros membros deste Belíssimo Point 😉

Maurício Gaia

Reza a lenda que, depois de tê-lo visto jogar uma partida de futebol society, Jorge Benjor fez uma viagem astral no passado, para encontrar seu eu de 1975, o homem ainda conhecido como Jorge Ben. Neste encontro, Benjor sussurou no inconsciente de Ben a letra de "Umbabarauma", sendo a primeira música homenagem prévia ao grande craque do céspede que Maurício Gaia se tornaria no futuro.

Além disso, mau10 lê, escreve e sabe contar até 100. Gosta de baião-de-dois e de guacamole com wasabi. Dizem que ele é um cara sério na internet.

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