Adeus Para Um Desconhecido Importante

Por Fernando Souza Jr. 208 visualizações3

Toda terça eu fazia tudo sempre igual. Às 16:20, numa sala de um prédio comercial, numa esquina da avenida Paulista, ele estava me esperando. Sorriso largo porém contido. Parecia ansioso para saber das novidades. Me passava a impressão que lia nas minhas feições o que estava acontecendo comigo. Sempre foi assim. Desde o dia um.

– essa decisão me traz um tremendo alívio, mas me sinto mal mesmo assim.
– você está se despedindo de um projeto de vida, não é fácil mesmo. outros projetos virão.

No início, eu sentava numa poltrona bem confortável, de frente pra ele. Eu falava sem parar, tomado por uma angústia sem fim. “I was a train, moving so fast”, como diz aquela música dos Strokes. De alguma maneira ele me ensinou a ir mais devagar.
Anotava o que eu falava num tablet. Suas intervenções eram econômicas, mas de uma precisão aguda. Ao final da sessão, ele escrevia umas coisas num pedacinho de papel, colocava na minha mão e pedia para eu guardar, ler e refletir em casa. Podia ser uma frase, uma pergunta. Podiam ser várias palavras soltas. Podia ser uma única palavra.

– às vezes eu não me sinto amado.
– mesmo sendo?

A decoração do consultório era de um kitsch reconfortante. Não havia nada muito neutro. Só algumas fotos em preto e branco nas paredes. O resto era colorido, como as camisas pólo que ele vestia. Paredes azuis, verdes. O divã era de veludo carmim. Dava um aspecto meio de cabaré, eu simpatizei de cara. Tirei uns cochilos naquele divã, interrompidos por seus “hum… vamos lá, retomando…” . Fiz grandes conexões refestelado nele, grandes achados. Construí uns alicerces internos. Fui arrancar muitas coisas incômodas de dentro de mim, enquanto ficava deitado ouvindo o barulho da avenida Paulista roçar o ambiente. Ficar deitado é vida.

– acho que estou deprimido.
– a melancolia é uma tristeza que se impõe. depressão é outra coisa.

Um dia os papéizinhos sumiram. Eu perguntei a razão, ele disse que eu não precisava mais deles. E que eu ia pro divã. No térreo do edifício, por essa época, abriu uma doceria portuguesa, de portas para a rua. Eu saía da sessão, comia um pastel de Belém e tomava um café, enquanto assistia o vai-e-vem das pessoas por ali. Um pequeno ritual, desses que a gente incorpora sem perceber, e depois não consegue viver sem.

– ontem briguei com meus filhos, exagerei na bronca e me sinto horrível por isso.
– você tem umas fantasias autoritárias que precisam ser combatidas.

Numa sessão que não andava, eu me peguei com uma música do Dinosaur Jr. na cabeça e fiz uma conexão com meu pai e o fato de me chamar Junior. E fui falando de tudo o que isso implicou na minha vida. E aí soltei: “Mas porra! o Martin Luther King era Junior também!”. Ele não conseguiu segurar o riso. “Eu sou modesto, né?”. “Você confia em si mesmo, isso não é ruim”, ele respondeu generosamente.

– o que você achou desse sonho?
– hum…

Um dia cheguei lá pensando em falar de uma coisa, comecei a falar de outra e me incomodei, mas não conseguia parar de falar. Até que reparei que uma das fotos na parede era a célebre cena de “O Exorcista”, o clássico do terror dirigido por William Friedkin, na qual o padre Merrin (Max Von Sydow) está postado na frente da casa, olhando para cima, em direção ao quarto da menina Regan (Linda Blair). Ela está tomada pelo demônio e a missão do padre Merrin é expulsá-lo do corpo da garota. É uma imagem icônica da história do cinema, cheia de significados que renderiam horas de conversa. O quadro era a deixa para eu fugir do que me incomodava naquela fala. Observei, entusiasmado: “que massa essa foto do Exorcista na sua parede!”. Ele respondeu com um silêncio sepulcral. Tive de retomar a sessão, aos trancos e barrancos. Na semana seguinte o quadro não estava mais lá. Eu nunca mais o vi em nenhuma parede do consultório.

– sofri meses com essa história e hoje percebo que era só meu ego me fazendo querer tomar parte numa relação que não era minha.
– acontece às vezes, que bom que você conseguiu enxergar.

Ao contrário de muitas pessoas que saem arrasadas das sessões de análise, eu sempre tinha a sensação de me despedir dele melhor do que estava ao cumprimentá-lo na entrada. Mesmo quando eu eventualmente chorava – foram poucas vezes. Foi assim também na última sessão, a mais curta de todas, que durou só 13 minutos. Ele disse que eu estava no caminho da alta, mas que talvez me colocasse “em observação” antes de bater o martelo, o que significava substituir as visitas semanais por quinzenais. Na porta, ao me despedir, eu disse que estava feliz com minha vida. Achei o sorriso dele meio irônico ao ouvir isso.

– A curiosidade pelo porvir pode ser uma forma de desejo?
– Pode ser. Normalmente, sim. Mas nem todo mundo consegue respeitar o próprio desejo. E a curiosidade pode virar um tormento.

Eu não tinha a menor ideia de que a última sessão seria de fato a última. Não havia nada no horizonte que indicasse isso. Na semana seguinte, a secretária me ligou, desmarcando a sessão daquela semana. Alegou que ele teve uma crise de labirintite. Sete dias depois, a mesma coisa. E assim foi, durante três, quatro semanas. Até que um dia ela ligou e disse que ele estava afastado do trabalho, em licença médica, por tempo indeterminado. Eu fiz apenas esperar. Comecei a levar a sério a hipótese de que talvez ele não voltasse mais. Ou talvez não retornasse tão cedo ao trabalho. Não há notícias, a secretária não está autorizada a dar qualquer outra informação. Percebi que a coisa era grave quando eu insisti e ela retrucou: “estamos encaminhando os pacientes dele para outros profissionais”.

– acho que descobri que sou muito parecido com minha mãe.
– ah lá! atente a isso, você chegou num lugar aí.

A relação com seu analista é, do ponto de vista social, absolutamente unilateral. Ele conhece suas questões, seus medos, seus segredos, seus amores, suas mesquinharias, suas virtudes. Ele provavelmente saca coisas a seu respeito que você ainda está para descobrir.
Você, ao contrário, sabe quase nada dele. Tem pistas vagas, o enxerga por frestas minúsculas. E, claro, é assim que tem que ser para a relação poder funcionar. Eu apenas sei (ou suponho) que ele lê a Piauí – tem uma pilha delas na recepção -, usa camisas pólos coloridas e gosta de um filmaço como O Exorcista. E mesmo o conhecendo tão pouco, ele se tornou uma figura referencial, uma espécie de porto seguro. Tão importante que sua ausência repentina me jogou numa espécie de luto.

– acho que fiz um drama maior do que ele realmente era.
– é preciso dar à questão o real tamanho dela. você tá aprendendo.

Uma amiga psicanalista, que foi quem o indicou, me deu a real: “entendo seu receio e seu apego, mas você precisa seguir sem ele, precisa voltar para a análise, com outro profissional”. Respirei fundo e liguei para a psicanalista que ela indicou. Marquei uma entrevista. Atravessei mais esse Rubicão pessoal pensando que eu queria, de alguma maneira, poder me despedir. Dar um abraço nele e ouvir “vá em frente, meu analisante”.

– eu tenho medo que ela vá embora.
– e ela tem motivos para ir embora?

Escrevi esse texto para, quem sabe, ele possa um dia ler. E, livres da âncora da relação paciente-analista, possamos os dois rir disso. Estaríamos dividindo uma mesa de bar e provavelmente discutindo os significados da imagem do padre Merrin encarando o quarto de Regan, pronto (?) para enfrentar O demônio – e seus próprios demônios internos também.

– Por que o sofrimento às vezes é tão atraente? Por que complicamos tanto a vida?
– Repetir o sofrimento é sempre tentador. Porque o sofrimento muitas vezes é um lugar conhecido, quentinho, seguro. Mas ainda assim não deixa de ser sofrimento.

Fernando Souza Jr.

Fernando Guimarães de Souza Jr., o Juca, é corinthiano, canceriano e jovem há mais tempo. Gosta de frequentar cinemas e bares. É rico de amigos. Acha que a vida não faz sentido sem música. Nas horas vagas é advogado.

Comentários (3)

  1. Que textaço

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