todas as suas histórias.

Por Juliana Damasceno 49 visualizações0

 

O Pedro era meu parça quando a gente tava num emprego muito merda. A gente suportou e fumou juntos cada minuto de dissabor, naquele sagrado horário do café da tarde. Pra chorar as mágoas, a falta de grana, os sonhos que a gente não conseguia realizar: ele na gastronomia, eu na psicologia.

Um dia, ele resolveu dar uma bota na tristeza e encarar de frente. Fiquei triste, mas desejei boa sorte. Vida seguiu, viramos “velhos conhecidos de facebook”. Hoje, saindo do elevador do mercado, falei assim pro menino ao lado da “banquinha de imóveis novos na região”: pô, amor, tô sem tempo de visitar o decorado ou de falar dele agora e… era o Pedro, porra!

Não, ele não virou corretor. Terminou a faculdade, trabalha pra uma conhecida revista de gastronomia – que ainda sobrevive às crises todas e mais algumas que inventam – vive por aí bebericando, cozinhando, vivendo. E o nosso abraço naquele estacionamento foi tão apertado, tão cheio de amor… uns 15 anos de amor, ao menos.

Daí que eu me dei conta do quanto as tais redes sociais vieram pra satisfazer nossos anseios mais imediatos, nossas necessidades mais secretas, mas não poderiam, nem deveriam apagar a nossa vida pregressa.

Aquela mesma repleta de amigos de colégio que, mesmo reaças ou esquerdistas – pouco importa -, dividiram contigo aquela cola na prova de matemática. Aquele choro escondido no banheiro porque o galã não te tirou pra dançar no bailinho. Aquele aperto no coração no dia da formatura, quando foi cada um pra um lado.

Aquela que você deveria ter construído, mesmo que de leve, naquele primeiro emprego maluco, em que até coxinha pro seu chefe você buscava na padaria. Mas em compensação, aprendeu uma caralhada de coisas bacanas, com gente bacana. As músicas que você aprendeu a ouvir com eles. Os sons que você precisou amadurecer pra entender. A cerveja gelada que você aprendeu a tomar com eles depois de um dia duríssimo de trabalho. As leituras que eles indicaram e que mudaram sua vida.

Aquela outra sua vida nas redações por aí afora. Nos escritórios. Onde quer que você tenha andado, aquelas outras todas vidas que você deixou lá pra trás por causa do imediatismo da internet ou por pura preguiça mesmo. Consegue se lembrar delas? Se lembra deles todos, daqueles personagens que fizeram, de alguma maneira, você ser quem é hoje?

Tem coisa que é pra sempre. Tem gente que não é. Tem história que só foi boa naquele tempo. Tem gente que só foi importante naquele momento.

Verdade.

Mas, pra todos esses casos, existiu uma história.

As redes ajudaram muita gente a interagir na timidez. A namorar sem autoestima alguma. A aproximar aqueles que te interessam pelos mesmos motivos. Mas também afastou, sobremaneira, aqueles que te ajudaram a escrever essas páginas todas da vida. Até aqui.

Porque é mais fácil e confortável procurar quem sempre concorda. Quem tá sempre disponível. Quem tá a um clique, e não a uma corrida de táxi de distância.

Ok, são novas formas de relacionar-se, mas a necessidade é a mesma de sempre, com ou sem conexão wi-fi: o de ser social. O de vivenciar plenamente esse atributo básico do ser humano. Então, a gente precisa mesmo estar sempre ligado pra estabelecer, manter essas relações e vínculos? Sério mesmo? Eu nem mesma sei se tinha internet ativa na garagem do mercado…

Seja lá como for, a lição que eu tomei na cara hoje é: o tempo apaga gente. Fisionomias. Paixões. Mas nunca jamais vai apagar grandes histórias. Como a minha e do Pedro. A minha com tanta gente.

Que alívio.

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