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Roger Guedes é mais um alvo do futebol gourmet

Por Fernando Cesarotti 80 visualizações0

O atacante palmeirense Roger Guedes foi a última das vítimas do espírito gourmet que marca o futebol, notadamente o brasileiro, nos últimos anos. Neste domingo, ele marcou o último gol do Palmeiras na vitória por 3 a 1 sobre o Novorizontino, pelo Paulistão, e foi expulso porque subiu no alambrado do estádio Jorge Ismael de Biasi para comemorar o gol junto com os torcedores que estavam por ali.

Guedes já tinha um cartão amarelo, por uma falta num lance de jogo, e levou o segundo, conforme a regra estabelecida pela Fifa e cumprida à risca pelo árbitro Luis Flavio de Oliveira. A minha queixa não é com o juiz, e sim com a regra em si. Tá lá, no livrinho da Fifa, regra 12:

Celebration of a goal
Players can celebrate when a goal is scored, but the celebration must not be excessive; choreographed celebrations are not encouraged and must not cause excessive time-wasting.
Leaving the field of play to celebrate a goal is not a cautionable offence but players should return as soon as possible.
A player must be cautioned for:
• climbing onto a perimeter fence
• gesturing in a provocative, derisory or inflammatory way
• covering the head or face with a mask or other similar item
• removing the shirt or covering the head with the shirt

Sim, a regra do futebol obriga o juiz a dar cartão para quem escala o alambrado (ou, nas arenas padrão Fifa, sobe a escadinha pra abraçar o torcedor), faz gestos provocativos, tira a camisa ou cobre a cabeça. E recomenda que os jogadores não façam dancinhas – para proibir não falta muito, vamos combinar. Guedes foi só o último: no domingo passado o são-paulino Maicon tomou amarelo após o gol contra o Corinthians por imitar uma galinha e, como diz a regra, provocar o adversário – pena que não tivesse um torcedor corinthiano sequer para ser provocado por causa da medida preguiçosa da torcida única. Semanas antes, outro são-paulino, Cueva, marcou contra o Santos, na Vila Belmiro, e pôs a mão na orelha. “Provocação”, disse o juiz, e meteu-lhe o amarelo. Só que Cueva faz isso em todos os gols, inclusive no Morumbi. É um “me aplaudam”, e não um “fala agora”.

O pior não é isso: é ter vários comentaristas que defendem a ideia, na lógica “precisamos prevenir a violência”, como se o fato de o jogador subir no alambrado COM SUA PRÓPRIA TORCIDA fosse um estímulo à violência. Por essa lógica, qualquer coisa pode ser estímulo à violência, não é? “Comemorou demais”, “Fez dois gols no meu time, que absurdo”. “Não comemorou”.

É a mesma lógica tosca que faz a polícia e o Ministério Público, com a bênção do hoje ministro-plagiador do STF e a anuência dos dirigentes covardes e/ou , optar pela torcida única que pode fazer um time comemorar um título sem torcida a seu favor. Vamos supor que aconteça, pois o Paulistão provavelmente será decidido num clássico e as finais terão ida e volta.

E aí, levantar a taça é provocativo? E beijar? Vão esperar a torcida do time da casa sair? Ou vão deixar pra entregar o troféu na segunda-feira, com todo mundo engravatado.

Esses canalhas de gravata que nunca chutaram uma bola estão matando o futebol. Ingresso caro, planos de sócio-torcedor extorsivos, propagandas chantagistas, dirigentes acomodados e jogadores que, se pensam um pouco fora da caixa, viram “polêmicos”. E a gente continua financiando essa merda, porque não consegue ficar longe. Tá complicado ser torcedor no Brasil.

Fernando Cesarotti

Professor, jornalista, corneteiro, esquerdista. Parmera, São Bento, Seahawks, Beatles, grunge, britpop, brock. "Intelligence should be our first weapon", já dizia o sábio Paul Weller. Seguimos tentando.

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