Itaquera, Minha Inadequação

Por Fernando Souza Jr. 493 visualizações2

No último sábado, 02 de julho, assisti pela terceira vez o Corinthians jogar em seu estádio, localizado em Itaquera, zona leste de São Paulo. O time venceu o Botafogo por um a zero, em jogo válido pelo campeonato brasileiro.

Eu cresci frequentando estádios. De início, levado pelo meu pai, que é santista. Minhas primeiras vezes numa arquibancada não são alcançadas pela minha memória. Eu devia ter dois, três anos de idade.

Um pouco mais velho, lá pelos seis ou sete anos, por influência do meu avô materno e de um tio, irmão de minha mãe, e também por causa do time da democracia de Sócrates e Casagrande, me tornei corinthiano. Ou melhor, encontrei minha identidade como corinthiano, que nunca mais me abandonaria.

Passei a frequentar estádios levado por este meu tio. Até os 30 e poucos anos de idade, eu ia regularmente assistir o Corinthians in loco, quase toda semana. Na maioria absoluta das vezes, no estádio do Pacaembu.

Se você me perguntar qual o meu lugar preferido na cidade de São Paulo, eu vou responder que é o estádio municipal Paulo Machado de Carvalho. Muitas lembranças, muitos encontros, muitas alegrias e tristezas entrelaçam minha memória afetiva a este lugar. Muito pelos jogos inesquecíveis que ali presenciei, claro, mas também por outros motivos – o Museu do Futebol, ali instalado, é um dos passeios preferidos dos meus filhos, só para ficar num exemplo.

Durante muitos anos nutri o sonho de morar nas redondezas do estádio, só para poder ir a pé nos jogos. Quase consegui, em 2010, mas alguns detalhes impediram de me mudar para um prédio bem antigo na avenida Angélica.

De modo que, quando o Corinthians anunciou a construção de seu estádio particular em Itaquera, um sentimento dúbio tomou conta de mim. Porque, embora a ideia de ter um campo na zona leste da cidade, tão identificada com o clube, pudesse realmente ser um marco em sua história – e ela, concretizada, virou isso mesmo, para o bem e para o mal -, eu sabia que sua inauguração representaria a ausência do Pacaembu na vida do clube que eu amo. E, por extensão, na minha vida também.

Particularmente, nunca me incomodaram as brincadeiras dos torcedores rivais com o fato do Corinthians não ter estádio. Primeiro, porque isso era factualmente errado: sempre tivemos o estádio Alfredo Schurig, a gloriosa Fazendinha, onde vi o crack Neto em ação algumas vezes. Sim: a Fazendinha, inaugurada às margens do rio Tietê em 1928, quando a cidade e o clube eram bem outros, tornou-se pequena para o tamanho do time e de sua torcida. Mas isso não elimina sua existência. Ela nunca deixou de ser um estádio.

Segundo, porque não ter “a casa própria” jamais foi obstáculo para o Corinthians ser um gigante do nosso futebol e criar uma identidade poderosa ao longo de sua história, numa simbiose absurda com sua torcida.

E terceiro porque futebol não é banco imobiliário. Não se mede a grandeza de um time pelo que está escrito no cartório de registro de imóveis. Quem, em sã consciência, pode afirmar que o Pacaembu não foi a casa do Corinthians, de fato e de direito, por seis décadas e meia? Cada um sabe onde é sua casa e porque a chama de lar.

Todo esse preâmbulo para chegar à minha experiência em assistir o Corinthians ao vivo em Itaquera. Que é tingida por um sentimento de inadequação, desconfiança, nostalgia.

A começar pela chegada. Saio do metrô e observo a completa ausência das barracas vendendo sanduíche de pernil, cachorro quente, calabresa. Mais: uma blitz da guarda civil metropolitana apreende produtos de ambulantes que tentam ganhar algum dinheiro vendendo principalmente cerveja e camisetas do clube.

Fora a constatação de que a guarda civil da cidade tem coisa muito mais importante para se preocupar, fica claro que a ação é, também, de interesse do clube. Retirar de circulação os ambulantes e a chance dessas pessoas ganharem honestamente o dinheiro de sua sobrevivência, em meio a uma crise econômica que assola o país há anos, obrigada os torcedores, por consequência, a consumir dentro estádio. A conta do mármore precisa fechar, como dizem por aí.

Ainda fora do estádio, a nostalgia bate forte. Tenho saudade de percorrer as barracas de pernil junto a meu tio. Ele era um especialista na matéria. Visitava duas, três, quatro, quantas barracas fossem necessárias até bater o olho num pernil cuja aparência o agradava. Raramente se equivocava.

Tenho saudade da atmosfera do Pacaembu em dias de jogos. De descer o escadarão do barranco que liga a rua Itápolis até a praça Charles Muller ouvindo a batucada da torcida e assistindo os bandeirões tremularem.

Trocamos o batuque e o barulho por uma massa homogênea entrando praticamente em silêncio no estádio. Substituímos o sanduíche de pernil das tias pelos hambúrgueres insossos do Bob’s, vendidos no saguão interno do estádio, que mais lembra um shopping center. Há quem deva preferir isso, penso eu.

É claro que as restrições à festa da torcida não surgiram com a arena. São ações – ou omissões, como queiram – frutos de anos e anos de demagogia, preguiça, fuga de responsabilidade e politicagem sórdida do poder público e dos atores envolvidos com o futebol ao lidarem com o problema da violência nos estádios e fora deles. Mas a chegada das arenas modernas vieram consagrar esse modelo pálido de torcida.

Lá dentro, o sentimento de inadequação toma conta. Pra começar, despeço-me temporariamente do meu amigo Renato, parceiro de inúmeras jornadas, dentro e fora dos estádios. Viemos juntos até aqui, mas não podemos sentar um ao lado do outro, como habitualmente fazíamos. Ele é adepto do programa Fiel Torcedor. Eu, por várias razões pessoais, não sou. Isto me obriga a comprar um ingresso dias depois dele, e praticamente nos impede de sentarmos em lugares próximos. As cadeiras numeradas por fileira, bloco e setor organizam a massa homogênea.

Tudo no estádio parece ter a finalidade de vender uma experiência de torcedor. Assim como, quando você visita a Disney, lhe é vendida a experiência de voltar a ser criança. Itaquera me dá a impressão, sempre e antes de tudo, que estou fazendo turismo.

Não à toa a, digamos, participativa locutora oficial do estádio anuncia, com ajuda do telão, que a Arena Corinthians ganhou o prêmio top of excellence do TripAdvisor, site que reúne avaliações e notas de turistas do mundo inteiro para hotéis, restaurantes e atrações turísticas.

Logo após esta relevante informação, a diligente locutora anuncia o tour Arena Corinthians, onde o visitante paga para percorrer as dependências normalmente inacessíveis do estádio, como os vestiários do time. Nada contra, mas em determinado momento ela diz: “visite a casa do povo”.

Nunca um slogan me soou tão surreal, pra dizer o mínimo. Como assim a casa do povo, com os ingressos custando o que custam? Com o programa Fiel Torcedor praticamente eliminando a rotatividade e a ida espontânea ao estádio? Com a homogeneização da audiência? A Arena Itaquera é sim um símbolo de exclusão, gentrificação e elitização incompatíveis com a História de um clube nascido e crescido sob o signo da humildade, da raça e da solidariedade. Uma vergonha indizível para o time que ostentou bravamente a bandeira da Democracia em plena ditadura militar.

Mas quase ninguém fala disso. Virou parte da paisagem. Algo muito brasileiro, aliás: a indiferença com o que nos diminui e nos mata aos poucos. Houve protestos por parte de alguns abnegados torcedores no início das atividades da Arena Corinthians, e só. Não é fácil lutar contra uma diretoria que não mede esforços para esmagar qualquer tipo de oposição crítica. Ou contra o senso comum turbinado pela publicidade midiática, que vende a ideia segundo a qual a exclusão não é só inevitável como também desejável, um símbolo de evolução e de modernidade. A conta precisa fechar e a atração turística precisa parecer, afinal, uma atração turística.

Imerso em pensamentos, sou acordado novamente pela locutora, sempre ela, que anuncia a entrada em campo dos “nossos guerreiros” para o aquecimento. E eu, ranzinza, me pergunto: será que ninguém sabe que os times se aquecem antes dos jogos? Desde quando isso é uma atração? Desde quando a rotina banal de um time vira algo anunciável? A torcida deixaria de aplaudir seus jogadores caso não fosse devidamente avisada?

É uma infantilização, um regresso: tenho a impressão que querem me ensinar como torcer. O aplauso precisa ser incessante e é preciso arrumar um pretexto para a festa nunca acabar.

A bola rola e a tensão natural do jogo não diminui meu incômodo. É difícil traduzir em palavras, mas a experiência de assistir meu time no campo mudou completamente. É tudo mais silencioso, é tudo mais easy. Canta-se menos, fala-se menos, protesta-se menos.

Em meio a esta constatação, num tiro de meta para o Botafogo, reaparece o grito da vergonha: enquanto o goleiro adversário corre para chutar e repor a bola em jogo, boa parte da torcida entoa o grito de “bichaaaa”. A idiotice homofóbica, em pleno 2017, parece soar, para os que aderem à ela, uma diatribe, uma subversão divertida só para eles, tal e qual adolescentes em uma excursão escolar que se permitem uma atitude escrota para quebrar a normalidade, o que a torna duplamente deprimente.

Na primeira vez em que dirijo minha corneta ao atacante Clayson, a quem chamo carinhosamente de “doencinha” ou “cemitério” (de jogadas), recebo olhares reprovadores. Alguns meio incrédulos.

Quando Fagner erra sua terceira tentativa de jogada de efeito, grito para ele largar a máscara e uma senhora na minha frente olha para mim e resmunga.

Tenho gana de falar “minha senhora, eu já xinguei o Neto de gordo vagabundo no alambrado do Pacaembu, você acha que eu vou poupar o Clayson ou o Fagner?”. Eu obviamente não falo nada: silencio e procuro me concentrar no jogo.

E não digam que a ótima fase do time inibe a prática da corneta. Eu já assisti, nesse mesmo estádio, o Corinthians ser eliminado pelo Audax pelas semifinais do Paulistão 2016, e a passividade da torcida foi a mesma. Estar na “arena”, participar dessa “experiência”, ter esse “privilégio”, deve bastar. O resultado do time é um mero detalhe. O importante é estar lá.

Claro, o jogo não virou uma missa. Os cantos, o árbitro homenageado a cada marcação que não agrada, os “uhs” prolongados a cada chance perdida, a irritação com a jogada que não sai direito, a explosão de alegria após o gol: essas coisas permanecem. Os Gaviões puxam um poropopó e aquecem meu coração nostálgico. Mas pouca gente em minha volta canta junto. Eu estranho.

Avisto um torcedor, três fileiras abaixo da minha, com uma jaqueta do clube onde se lê às costas: since 1910. Acho a jequice travestida de sofisticação um pecado imperdoável. Since 1910: pouca coisa é menos time do povo que essa frase.

No início do segundo tempo, pênalti para o Corinthians. Para acompanhar a batida de Jô, preciso me esquivar lateralmente para não enxergar o lance pela tela do celular de terceiros: muita gente saca o aparelho para filmar a cobrança do penal. Me irrito. Me irrito em dobro, já que Jô perde o pênalti.

Finalmente o time marca seu gol, corinthianíssimo, suado, num bate-rebate digno de 77. Jô empurra a bola para as redes e se redime do pênalti desperdiçado. Minha comemoração é interrompida por um senhor, que vem gritar comigo: “não pode criticar o time!, não pode criticar o time!”

Eu não deixo ele atrapalhar minha alegria e finjo que não estou entendo. Ele desiste de fiscalizar meu modo de torcer. Sou um peixe fora d’água.

O jogo acaba. Vitória garantida, liderança do campeonato consolidada. O sentimento de inadequação permanece, mas não obstrui meu amor pelo time. E meu orgulho por este time específico do Corinthians: raçudo, limitado, obstinado.

Saio do estádio, encontro com meu amigo, comentamos sobre o sufoco do jogo, o gol sofrido, quem jogou bem, quem jogou mal, se foi pênalti, se não foi.

Na volta, dentro do vagão do trem, divago sobre minha inadequação. Talvez seja impossível fugir do futebol business total, do marketing como um fim em si mesmo. As pessoas devem estar felizes com o Bob’s, os banheiros de mármore e as jaquetas since 1910. Orgulhosas da “casa própria”.

 

Na era em que se preza o artificialismo quase como um fetiche, as arenas fazem muito sentido ao transformarem a experiência do torcer em um bem de consumo. Num mundo onde o estado do bem estar social e os ideais de uma sociedade mais igualitária estão virando nota de rodapé, talvez seja utópico demais querer que o clube se preocupe em manter uma política de ingressos minimamente inclusiva. O futebol jamais foge de sua vocação de metáfora perfeita da vida.

Lidar com isso talvez seja uma forma de encarar minhas limitações. Traz o gosto meio amargo da passagem do tempo. De constatar que atravessamos a vida deixando muita coisa pra trás. Tenho enormes dificuldades em abandonar certos amores, certos lugares, certas histórias.

O gol da vitória, relembro, nasceu de uma jogada espetacular de Pedrinho, completada por Jô. Dois atletas egressos, em tempos distintos, das categorias de base do time. Uma prova de que você não destrói a identidade de um clube do tamanho do Corinthians, embora muita gente se esforce para conseguir.

Não deixa de ser um alento, ainda que marginal diante de todo o contexto. A Arena Corinthians – antes eu fazia questão de chamar de Itaquerão, mas esse apelido meio relaxado, meio ZL demais, tem mesmo pouco a ver com a atração turística -, permanece como símbolo da minha inadequação pessoal. Uma ausência. Meu não-lugar em um mundo que se transformou em outra coisa. O contraste com o velho e bom Pacaembu, com sua elegância natural e sua imponência discreta, encravado num vale bem no meio da cidade, que parece ter sempre existido só para receber o estádio e suas arquibancadas acolhedoras, e elas receberem a mim.

Talvez um dia eu me acostume e passe a frequentar Itaquera com mais regularidade. Mas só me acostume. Não sei se consigo ir além. Não sei se um dia chamarei aquele lugar de casa.

Fernando Souza Jr.

Fernando Guimarães de Souza Jr., o Juca, é corinthiano, canceriano e jovem há mais tempo. Gosta de frequentar cinemas e bares. É rico de amigos. Acha que a vida não faz sentido sem música. Nas horas vagas é advogado.

Comentários (2)

  1. Que texto perfeito! Expressou detalhadamente tudo que penso e sinto sobre esse lance de “arena”, “casa própria”, todo esse mito criado e comprado que para o clube crescer/ser grande/se modernizar existia a necessidade de se ter um estádio próprio. Parabéns, Fernando. Assino embaixo de cada palavra e sentimento seu.

  2. Comecei a perceber essa mesma mudança ainda no Pacaembu, quando num intervalo de jogo no meio da arquibancada uma família abre seus pacotes de bolacha recheada passatempo para comerem. E os amendoins? Entendi isso como um reflexo claro do programa sócio-torcedor. Depois que inauguraram o estádio de mármore, não fui mais.

Comente

Seu e-mail não será publicado

.