aquela final que nunca acabou.

Por Juliana Damasceno 37 visualizações2

telefone fixo aqui em casa ainda tem uma utilidade: falar com a minha mãe. ela só liga nele pra falar comigo. e só me atende se eu ligar dele.

já cheguei a pensar em cancelar a linha, liguei na operadora… desisti na última hora, porque lembrei da minha mãe no momento exato do cancelamento.

afinal de contas, como é que eu vou escutá-la por mais de 20 minutos, sem respirar, falando da família, contando histórias, etc? (já cronometrei, inclusive).

chegando mais um domingo de final do paulista, botei o bichinho pra funcionar outra vez. liguei pra mãe.

perguntei pra ela se lembrava daquela final de 77, de como o pai ficou naquele dia. eu só tinha um ano e ela ficava sempre muito brava quando ele largava tudo pra ir atrás do Corinthians. já tinha feito isso em 76, na invasão, no Rio. eu só tinha dois meses e ela, naturalmente, emputecia com os lampejos fanáticos do meu pai.

curiosamente, minha mãe apagou – ou acha que apagou – as memórias detalhadas daquele outubro de 77. talvez porque não tenha recordações lá muito bacanas.

[diz a lenda urbana familiar que meu pai chegou de manhã, enrolado numa bandeira, chorando igual criança. e que meus avós tiveram que correr lá pra consolá-lo, dar banho, botar uma roupa, fazer um café forte, até que ele tivesse forças pra trabalhar].

a única coisa que ela se lembra, e falou com muita ênfase, é que nunca viu comemoração igual àquela. nunca mais. “nem carnaval, nem copa do mundo foi assim”, comentou.

provavelmente nunca vou saber medir o depoimento dela. talvez pela fantasia de corinthiana que também é, talvez pelo saudosismo de lembrar da minha família festejando na rua aquele campeonato redentor. talvez pela “raivinha” guardada do meu pai depois de 40 anos pelas comemorações exageradas.

fato é que, 40 anos depois, eu que devo ter assistido tudo de um berço, hoje posso estar à frente da tv pra presenciar mais esse momento mágico e curioso, daqueles que só o futebol, talvez a música, sejam capazes de proporcionar à existência da gente.

e se na segunda-feira, tudo parecer efêmero ou só mais uma passagem, ao menos a gente começa a semana que vem de coração mais leve e com alguns quilos de angústias a menos no peito. aquelas angústias que saem em forma de grito, de abraço, sabe?

boa sorte, corinthians.

 

 

 

 

Comentários (2)

  1. Ju, eu lembro. Eu tinha um pouco menos de 12 anos e foi a primeira vez que eu meu irmão mais velho tivemos autorização para ficar até mais tarde na rua. Realmente, não vi nada igual nunca mais. A comemoração da Libertadores de 2012 foi gigantesca, mas aquele outubro de 77 foi sem igual. Vi carnavais de rua, no bairro, nos bairros vizinhos. Quem tinha carro foi para a avenida Goiás, em São Caetano (juram que tinha umas 5 mil pessoas). Quem teve coragem, foi pra Paulista (mais de 25 mil). Como li numa crônica tempos atrás: “vesti uma camisa listrada e saí por aí”.

    1. bob, que honra! que delicia te ler de novo, chefe <3

Comente

Seu e-mail não será publicado

.