Laerte-se Ou: Quem Algum Dia Esteve Pronto Para As Coisas Importantes da Vida?

Por Fernando Souza Jr. 3.476 visualizações0

1987: eu era um adolescente magrelo, espinhento, tímido, viciado em rock, explodindo em curiosidade e hormônios, quando me apresentaram uma revista chamada Chiclete com Banana.

Nela, a nata dos cartunistas do underground paulistano traziam personagens e histórias em quadrinhos que me pareceram a coisa mais subversivamente atraente que um menino de 12 para 13 anos poderia encontrar: histórias urbanas, sexo, humor corrosivo, crítica à sociedade, desprezo pela autoridade.

Virou leitura obrigatória, e seus principais desenhistas, Angeli, Glauco e Laerte tornaram-se referência para mim. Meu mundo, após a Chiclete com Banana, nunca mais foi o mesmo.

Trinta anos depois, assisto ao documentário Laerte-se na TV de casa, sozinho, e me pergunto: eu receberia com a mesma naturalidade a transformação em mulher de um dos meus artistas brasileiros preferidos se Chiclete com Banana não tivesse me acompanhado nos anos fundamentais da formação da minha visão de mundo?

A resposta é: provavelmente não. Mas a resposta correta, desconfio, seria: por que não?

O que há de errado com a idéia de cada indivíduo ser o que bem entender? Por que nos damos a liberdade de querer regulamentar, restringir e até mesmo anular a liberdade do outro? Mais: por que a liberdade do outro nos incomoda tanto?

Laerte-se é menos um documentário sobre a transformação de Laerte Coutinho em mulher do que sobre as limitações que insistimos em impor a nós mesmos, como indivíduos, para exercemos nossa liberdade, para sermos quem queremos ser. Para encararmos o que desejamos.

Nesse diapasão, não há personagem mais simbólico e com mais força representativa no Brasil hoje do que a Laerte.

Enfrentando o ambiente hostil de um país que cada vez mais parece querer refugiar-se no autoritarismo político e no moralismo castrador das religiões neopentecostais – que, ao contrário da igreja católica tradicional, entendeu a força do poder econômico como potência simbólica e vende o sucesso financeiro individual como a única libertação possível – O Laerte quis ser mulher e assim o fez, aos quase 60 anos de idade, impondo ao mundo a presença de A Laerte.

Não à toa, tornou-se ícone político para os que enxergam e querem o mundo como uma possibilidade de sociedade horizontal e igualitária no que tange a direitos, onde os indivíduos vivam como bem desejar, independente do crivo de qualquer instituição, livre de qualquer chancela da autoridade.

O grande mérito do documentário é enquadrá-la como este personagem político ressaltando sua grande característica: Laerte se nega a ser o ícone político clássico, egocêntrico, apaixonado pelas próprias convicções, livre de dúvidas, medos e questionamentos.

Muito ao contrário: vestido de mulher e despido de autocensura, Laerte jamais esconde seus temores, dúvidas e angústias a respeito do caminho que tomou. Mais: assumir diante da câmera todos os questionamentos que carrega consigo não impede Laerte demonstrar a felicidade – e um certo alívio e um certo orgulho – de sua personalidade feminina. Como ela parece se divertir enquanto mulher! Talvez porque esteja livre, em boa medida, do personagem cheio de amarras e carregado de lugares-comuns a respeito da (frágil) masculinidade que nós, homens, somos ensinados desde cedo a exercer publicamente.

Sua fala serena e lúcida jamais passa por um discurso político, embora traga uma incrível força reflexiva. Sua capacidade de rir de si mesma destrói a acusação ouvida aqui e acolá, segundo a qual ela apenas seria mais uma celebridade em busca de holofotes – hipótese que, de resto, sua obra robusta igualmente desmente.

A autenticidade da escolha de Laerte passa, também, por sua generosidade e sensibilidade ao entender as limitações de quem está ao seu redor para lidar com a mulher Laerte, seja quando coloca em perspectiva as reações de seus pais idosos com a novidade, seja no diálogo que mantém com sua manicure, que insiste em chamá-la de “meu amigo Laerte”, em uma das minhas cenas preferidas do filme.

Embora sua decisão de tornar-se mulher tenha sido consciente e fruto de um desejo, e isso fica claro durante todo o documentário, Laerte parece nos dizer a todo momento que nunca esteve totalmente pronta pra ela. E que isto, porém, não pode ser um impeditivo, uma interdição.

E novamente me peguei pensando durante o filme: quando alguém esteve pronto para qualquer decisão importante da vida? Você estava pronto para o primeiro dia de escola? Pronto para o primeiro beijo? Pronto para casar? Pronto para ser mãe ou pai? Pronto para se despedir de um ente querido? Pronto para assumir o novo emprego? Pronto para dizer adeus a alguém que já foi seu amor e hoje não é mais?

Imagine estar pronta, aos quase 60 anos, pais vivos, três filhos, neto, para anunciar que daqui pra frente serei mulher, vou me vestir de mulher, quero que me chamem A Laerte.

Não se consegue respeitar o próprio desejo sem uma dose mínima de coragem.

A idéia de que temos de estar inteiramente prontos para certas mudanças e decisões bruscas que a vida nos apresenta me parece umbilicalmente ligada à fantasia autoritária de que temos de estar no controle da situação 100% do tempo. À idéia de que a vida só pode ser encarada livre de riscos. À ilusão de que toda decisão deve estar isenta de dúvidas.

A dúvida é o fio condutor de Laerte-se. Os próprios questionamentos da personagem central do filme são transformados por ela em combustível para atiçar a curiosidade sobre o porvir.

A fantasia do controle há muito foi deixada pelo caminho por Laete, que preferiu vestido, salto alto, batom, calcinha e, sublime desafio, a própria liberdade de ser quem ela deseja ser.

 

*com a colaboração sempre valiosa de Carolina Bicudo, encarregada da revisão

Fernando Souza Jr.

Fernando Guimarães de Souza Jr., o Juca, é corinthiano, canceriano e jovem há mais tempo. Gosta de frequentar cinemas e bares. É rico de amigos. Acha que a vida não faz sentido sem música. Nas horas vagas é advogado.

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