Choose Life

Por Fernando Souza Jr. 104 visualizações0

Mark Renton está de volta a Edimburgo, 20 anos depois de ter picado a mula com uma sacola de dinheiro, passando a perna nos três amigos de infância, comparsas em uma intermediação de um carregamento de heroína junto a mafiosos russos. Seus companheiros, deixados pra trás no quarto de um hotel barato de Londres, estão ávidos para reencontrá-lo e acertarem as contas, sobretudo Franco e Sick Boy.

Eu revi, há dez dias, o Trainspotting original, de 1996, como parte da preparação para assistir a sua continuação, que estreou na última quinta (23) nos cinemas brasileiros. Foi uma experiência única rever um filme que marcou minha juventude não tendo mais 20 anos e, portanto, livre do impacto que sofri quando o vi pela primeira vez. Impacto este que não se resumia apenas à linguagem inovadora, às imagens únicas dos protagonistas viajando com heroína, ao quase desapreço deles pela própria existência, mas também em se deparar com tudo isso com apenas vinte anos, moleque de classe média ainda cru para a vida, com a concepção de mundo fincada na ingenuidade voluntariosa de qualquer jovem. Assisti ao filme e pude saborear seu humor, os diálogos ácidos travados a todo instante, as nuances envolvidas em cada personagem e que, de certa forma, Mark Renton enxergava e sentia, ainda que inconscientemente – e que, entre outros motivos, o leva de volta a Edimburgo no filme continuação, como eu constataria posteriormente.

“Choose Life” foi um slogan que o governo britânico inventou como mote de uma campanha antidrogas nos anos 80. “Escolha a vida” em oposição ao consumo de drogas, que representaria a morte. Trainspotting brinca e desnuda o cinismo por trás desse slogan: escolher a vida. Mas que vida mesmo? A vida entediante do subúrbio cinza escocês? A vida careta, sem vícios, mas sem grandes perspectivas que o mesmo governo impõe? A vida de só pensar em trabalhar e produzir e pagar a hipoteca, sem as mesmas garantias sociais de antes, desmontadas pelos anos Thatcher? Talvez haja mais vida numa viagem de heroína do que em muitas existências opacas por aí. A questão é: e o preço?

Em Trainspotting 2, Mark Renton está meio embasbacado e curioso ao voltar para sua cidade natal. Ele estranha a recepcionista eslovena no aeroporto, olha meio assustado para o centro remodelado e modernoso de Edimburgo, a bordo de um metrô de superfície novinho que serpenteia pelas ruas. A modernidade com que o mundo se vende, as maravilhas trazidas pela tecnologia, a vida on line que forjamos nas redes sociais serve como uma nova droga, um escape de nós mesmos. Edimburgo agora tem tudo isso, ao menos na casca. É também uma cidade supostamente globalizada. O olhar de Renton a bordo do trem denuncia um espanto quase infantil com esse novo mundo.

Em determinada altura, quando o efeito da chegada se dilui após alguns dias na cidade, Renton está jantando com a namorada de Sick Boy, que lhe pede para explicar o que significa esse tal “choose life” que o namorado solta de vez em quando, enigmático. Então Renton não só explica como atualiza a sequência de “chooses”, numa das muitas passagens memoráveis do filme. Essa escolha é uma possibilidade, mesmo? É possível, ao longo da vida, renunciar, remontar e reescrever suas escolhas?

Ewan McGregor, o ator que dá vida e empresta o carisma e o sorriso tenso a Mark Renton, ficou mais de 15 anos sem falar com o diretor do filme, Danny Boyle. Amigos desde que McGregor estrelou Shallow Grave (Cova Rasa), estreia aclamada de Boyle no cinema, e de terem ascendidos juntos à fama após Trainspotting, McGregor ficou magoado com o parceiro quando este não o convidou para protagonizar The Beach (A Praia), a primeira grande incursão do diretor em Hollywood, no ano 2000. Doyle prefriu Leonardo DiCaprio. Confrontado com a possibilidade de filmar Trainspotting 2 e reviver Mark Renton, Ewan McGregor superou a mágoa, deixou o rancor de lado e voltou a ser amigo de Danny Boyle. Escolheu a vida.

Renton está preocupado. A empresa para qual trabalha foi comprada por uma gigante do setor. Corte de pessoal à vista. Sua formação limitada e sua idade não o permitem ter esperança de manter o emprego por muito tempo. Voltar a Edimburgo é, também, retornar ao local onde se sente seguro de alguma forma, ainda que isto signifique encarar o passado cheio de pontas soltas e contas a acertar. A nostalgia é uma prisão e, ao mesmo tempo, uma estranha senha para a liberdade. O mundo neoliberal ultra competitivo cuja semente foi plantada pela doutrina Thatcher vingou e deu frutos. Somos empresas de nós mesmos. Não vamos nos aposentar, vamos morrer trabalhando e postando uma foto feliz no instagram. Reiventar-se virou uma necessidade macabra, uma corrida de obstáculos para atletas cada vez mais despreparados. Choose Life? Sério mesmo? A nossa vida precarizada, talvez mais que em 1996 do ponto de vista político e econômico, traz muito sentido ao Trainspotting de 2017.

Trainspotting 2 é quase um milagre ao não cair na armadilha da continuação fácil e virar um caça níquel. A reunião do elenco original foi essencial para o projeto decolar, mas jamais poderia ser, por si só, garantia de uma sequência digna, livre dos maneirismos nostálgicos. A reunião dos quatro amigos vinte anos depois não se transformou num encontro de senhores barrigudos surfando no próprio passado. Ao contrário: o presente pulsa na tela, urgente. O que os identifica e os une está ali mas o que os divide e os fazem odiar-se quase na mesma medida, também. Há uma melancolia que atravessa o filme, mas há também um tesão pelo que há pela frente. Para isso, contribuem decisivamente os melhores diálogos que você verá num cinema em muito tempo, talvez ainda melhores que os do filme original. A infância dos personagens, essencial para sacar os laços entre eles, está ali, mas nunca retratada de forma piegas. Boyle filma melhor do que nunca, dando vida e imaginação a um roteiro redondo. A trilha sonora é espetacular e personagem do filme, como era no primeiro. O elenco está claramente mergulhado na missão de mostrar que seus personagens se recusam a serem simples caricaturas do primeiro filme. É impossível varrer sua história pra baixo do tapete, mas é possível seguir em frente apesar dela. Ou – por que não? – por causa dela. O passado não precisa ser um fantasma invencível, embora às vezes chegue bem perto disso. Choose Life.

Fui ver Trainspotting 2 com um grupo de amigos na quinta-feira de sua estreia no Brasil. Todos saíram visivelmente emocionados da sessão. Nos dias seguintes, fiz algo que há muitos anos não fazia: passei um final de semana na praia com esses mesmos amigos e mais alguns. Voltei de lá com a pele avermelhada e uma espinha embaixo do nariz. Brinquei com a coincidência e disse que esta era uma semana adolescente por excelência. Minha amiga Juliana Damasceno, companheira de bebedeiras, observações sobre a vida ordinária, incursões nostálgicas e tudo mais, vive me dizendo que os nossos 40 anos são os novos 20. É impossível deixar o passado por aí; a nossa história a gente carrega perpetuamente e o fígado já não é mais o mesmo. Nem as ilusões. Tanto melhor que seja assim e que temos consciência disso, por mais que possa ser sofrido às vezes. Juliana chorou bastante durante a sessão de T2. Eu não chorei mas a entendi. Escolher viver e encarar essa decisão é, no fim, a única forma possível de se viver. Com um ou outro entorpecente de vez em quando, seja ele de qual natureza for, e pode ser música alta, esporte radical, sexo, pode ser apenas álcool. Pode ser inclusive a luta para transformar o mundo ou apenas transformar a si mesmo. Pode ser só a insistência de seguir em frente. Porque o Choose Life está bem longe de significar a submissão a seco à realidade brutal em que estamos mergulhados, como bem mostram Mark Renton e seus amigos.

 

*meu muito obrigado a Carolina Bicudo pela revisão do texto

Fernando Souza Jr.

Fernando Guimarães de Souza Jr., o Juca, é corinthiano, canceriano e jovem há mais tempo. Gosta de frequentar cinemas e bares. É rico de amigos. Acha que a vida não faz sentido sem música. Nas horas vagas é advogado.

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